“A Suma Teológica de Santo Tomas de Aquino em forma de Catecismo” do Pe. Tomas Pégues, O. P., é uma excelente obra para aqueles que desejam iniciar o estudo da Obra Magna de Santo Tomás. Um tanto raro aqui no Brasil, haja vista que sua última edição em português data do início da década de 40, este livro é formulado como todos os catecismos tradicionais em perguntas e respostas e é de agradável leitura.
PRIMEIRA PARTE: DE DEUS, SER SOBERANO E SENHOR DE TODAS AS COISAS
XV. DA INTELIGÊNCIA E DO ATO DE ENTENDER
Há no homem outra faculdade cognoscitiva?
Sim, há outra que é a principal e mais nobre.
Que nome tem?
Inteligência ou razão (LXXIX, 1).
A inteligência e a razão são uma ou duas potências?
Uma só (LXXIX, 8).
Por que tem dois nomes?
Porque há verdades que o entendimento compreende intuitivamente num piscar de olhos, e outras que necessita adquirir mediante o raciocínio (idem).
Por conseguinte, o discurso* é o ato característico do homem?
Sim, porque nenhum outro ser da criação pode e necessita discorrer.
* “Discurso” está empregado em sentido filosófico e refere-se ao “raciocínio que se realiza pela sequência que vai de uma formulação conceitual a outra, segundo um encadeamento lógico e ordenado.” (fonte: Dicionário Houaiss)
O discurso é a perfeição da inteligência humana?
Sim, porém, a necessidade de discorrer revela imperfeição.
Por que, no homem, a faculdade de discorrer é perfeição?
Porque através dela o homem pode conhecer a verdade, intangível aos seres inferiores, como são os animais privados da razão.
E por que, por outro lado, a necessidade de discorrer revela imperfeição no homem?
Porque, ainda que o homem possa conhecer a verdade em virtude do raciocínio, somente o consegue lentamente, de forma gradual e correndo o risco de enganar-se. Ao contrario, os seres que não o necessitam, como Deus e os Anjos, apoderam-se da verdade imediatamente e assim estão isentos até da possibilidade de se enganarem.
O que significa conhecer a verdade?
Ter conhecimento do que existe.
E o que implica desconhecê-la?
Ignorância ou erro.
Há alguma diferença entre a ignorância e o erro?
Sim, e muito grande: a ignorância e a carência de conhecimento de algo; erro é atribuir existência ao que não a teve nem tem.
Viver no erro é um mal?
Sim, porque o bem próprio do homem consiste na verdade, que é o bem da inteligência.
O homem tem ciência inata?
Não, porque, ainda que desde o princípio possua inteligência, há de aguardar para adquirir a verdade, que as faculdades sensitivas destinadas a servi-la se desenvolvam (LXXXIV, 5).
Quando o homem começa a conhecer a verdade?
Quando tem uso da razão, aos sete anos aproximadamente.
A razão humana pode investigar todas as verdades e conhecê-las?
Com o exercício próprio de suas forças naturais, de nenhum modo, pode adquirir conhecimento próprio de todas elas (XII, 4; LXXXVI, 2,4).
Que coisas pode conhecer naturalmente?
As coisas sensíveis e as verdades que deste conhecimento se derivam.
O homem pode conhecer-se a si mesmo?
Sim, porque há nele alguma coisa que pertence ao domínio dos sentidos; e partindo do sensível mediante o discurso pode investigar o que necessita para saber o que é (LXXXVIII, 1, 2).
Pode conhecer os espíritos puros?
De um modo imperfeito, somente.
Por quê?
Porque eles não pertencem ao mundo do sensível, objeto próprio da razão humana.
Pode conhecer a Deus em si mesmo?
Não, porque a sua natureza soberana distancia-se infinitamente do objeto proporcionado à inteligência, no conhecimento natural, que, como dissemos, é o mundo sensível (LXXXVIII, 3).
Logo, a razão humana, abandonada as suas próprias forças, como pode conhecer a Deus?
De modo muito imperfeito.
Apesar desta imperfeição, enobrece ao homem o conhecimento natural de Deus?
Sim; em primeiro lugar, porque por meio dele, se levanta muito acima dos irracionais; segundo, porque o convence que será elevado, mediante a graça, à soberana dignidade de filho de Deus e que, em virtude desse conhecimento, está chamado a conhecê-lo como é, primeiro de modo imperfeito, mediante a fé, depois intuitivamente, pelo Lumen Gloriae (XII, 4 ad 3).
O homem igualou-se aos anjos, em virtude da elevação à dignidade de filho de Deus?
Em virtude desta elevação pode ser igual e até superior aos anjos na ordem da graça, porém sempre inferior na da natureza (CVIII, 8).
