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Ipad como missal no rito tridentino


Para mim a questão é simples em alguns pontos e complexa em outros. A parte simples é entender que os objetos litúrgicos, sejam eles sagrados, de culto, sejam meros adornos, podem e até devem, em alguns casos, serem confeccionados de acordo com a tecnologia utilizada em voga. Não há sentido em escrever um missal à mão se hoje existe a impressora, assim como não há sentido em se confeccionar velas artesanalmente e diretamente do apiário quando existe uma máquina para moldar os cilindros de cera, etc. Ou seja, os objetos que se usam devem se beneficiar de uma confecção que seja mais prática e barata, especialmente quando a sua não-utilização passa a ser inviável, impensável, exatamente como os dois exemplos que eu citei.

Agora, a parte complexa. Vejam que eu disse “confecção prática”  e não “utilização prática”. Para mim é importante distinguir as duas coisas. A praticidade da utilização dos objetos litúrgicos, a meu ver, não pode ser superior à significação simbólica dos mesmos. Assim, não é lícito se utilizarem flores artificiais no altar, muito embora elas sejam mais práticas, sujem menos, durem mais, sejam até mais bonitas e vistosas. Assim como é ilícito o uso de CD's para a execução dos cantos litúrgicos, embora a qualidade sonora possa ser muito superior e demande muito menos tempo para ensaio, afinação de vozes, etc. “Para o Deus verdadeiro, o culto verdadeiro”.


Então, como saber o que pode e o que não pode? Penso que se um objeto, ou ação litúrgica, tenha alguma significação em si mesma, ela não pode ser suplantado por algo mais prático, principalmente quando seu uso ainda é de praxe. Não se dão flores artificiais de presente para ninguém, embora elas existem em consultórios; ninguém vai ao show de uma banda para ouvir o CD dela, embora cada vez mais se expanda o comércio das gravadoras; ninguem acende uma lâmpada elétrica para o santo de devoção, embora elas sejam hoje o principal meio de iluminação. 



É inevitável não se abrir o livro do Apocalipse e ver lá a Missa, ou vice-versa. A presença de um turíbulo, procissões com castiçais, velas, túnicas, toalhas, livros, tudo se correlaciona com a leitura das sagradas escrituras e transmite a perenidade da verdade que acontece na ação sagrada. Não se pode abrir mão desses elementos simbólicos em função de uma pretensa facilidade de uso. Perde-se muito com isso.

Cada caso precisa de especial atenção. Certa vez alguém nos comentários do blog protestou a favor de invencionices tecnológicas na Missa porque hoje se usam lâmpadas nas igrejas. É verdade, mas as lâmpadas não substituem as velas de altar, apenas os lustres, que não possuem função simbólica, mas apenas estética. A única exceção é a lâmpada do sacrário, que pode ser elétrica, mas não preferencialmente. Notemos que as instruções da Igreja são precisas para alguns casos excepcionais.

Quando se trata de um objeto exta, estranho ao culto, não relacionado com ele, como o microfone, há questões a serem observadas também. Uma recomendação dos liturgistas é que eles sejam o mais discretos quanto for possível, e de preferência não ocupem o altar. O sacerdote preferencialmente não deve segurar o microfone quando estiver celebrando uma ação ritual, mesmo a saudação (porque deve estender as mãos, etc; nesses casos o cerimoniário ou um acólito é quem deverá segurar-lhe o microfone), apenas nos momentos onde se permite comentários e na homilia. 


Finalmente, o que dizer dos livros? Penso que possa até haver a substituição de alguns livros, em alguns casos, sob as seguintes condições:

a) a confecção dos mesmos já tenha se tornado inviável de modo que tê-los seria um luxo desnecessário, quase que um trabalho artesanal (ou seja, estamos falando de um futuro aparentemente muito distante);

b) a Igreja deveria aprovar estes usos, como o fez com a lâmpada do sacrário; e

c) ao menos no caso do Evangeliário [ na Liturgia Nova ], se for usado um livro digital, precisaria se revestir de uma capa que aparentasse um livro antigo, pela simbologia empregada. Isso não é errado, pode-se, por exemplo, colar folhas no Evangeliário caso a leitura não se encontre lá, mantendo-se assim o aspecto digno do mesmo. No caso dos missais, isso não seria tão crítico assim, até porque não há a obrigatoriedade de que o sacerdote leia tudo de um único livro chamado missal (existem as sacras por exemplo; sacras eletrônicas, porém dignas, me parecem muito plausíveis). 


E se ele for consagrado para esse uso exclusivo, e forem feitas capas para o iPad, tal como existem capas para o missal em livro, dando assim o caráter artístico e sublime?

O objeto consagrado tem que ser um livro? Permanecendo o mesmo conteúdo, e seu uso exclusivo, qual seria o problema? O que torna um missal um missal? Certamente que os livros liturgicos antigos eram todos feitos a mãos por copistas, e exigiam um trabalho artístico artesanal.

Para muitos a arte não é a mesma coisa se por exemplo for feita por meio industrial. Assim valeria apenas o trabalho do copista à mão, e não aquele impresso, feito pela máquina. Tal como não uma impressão da Monaliza, não tem o mesmo valor da obra em si. Ou mesmo um artista que pinte a mesma coisa vária vezes... O que ele assina, com tinta é mais valioso do que algo impresso com a mesma figura?


Pessoalmente eu não acredito na história de
livro digital  ainda não tive um desses ereaders modernos na mão, mas tenho prazer no papel.

Agora, é fato de que existe uma tendência para transformar todos os livros em e-readers logo é uma questão de tempo para que isso chegue nos livros litúrgicos.

Não acho que essa hora já tenha chegado, mas da mesma forma que papéis soltos foram costurados, manuscritos foram impressos, e chegamos nos livros atuais, vamos continuar evoluindo a forma com que a escrita é disponibilizada a população.

E vamos deixar claro, isso não é modernismo é modernização tecnológica!

Hoje estamos usando o termo Ipad pois se trata do e-reader mais famoso do mercado, mas a questão é que existe uma tendencia a transformar o livro em algo digital.

Como falei não vejo isso no agora, e nem ao menos no curto prazo, mas a médio prazo o que entendemos por livro será algo diferente do que se entende hoje.

No mundo contábil, os livros das empresas já são digitais e não deixaram de se chamar livro... e quando digo livro das empresas, me refiro aos livros contábeis, registrados em cartório, na junta comercial, entregue para a receita federal e etc... hoje isso é um arquivo magnético que chamamos de livro.


Também sou do time que acha o livro em papel mais bonito, mas estou vendo que esse livro em papel está sendo substituido por outro modelo de livro, como foram os papiros substituídos pelo papel, o papel solto pelo costurado, o costurado pelo impresso e colado que temos hoje, pode ser triste e podemos considerar feio por estarmos acostumados com os livros como são hoje, mas é uma questão de tempo.

Considerações do confrade Rafael Cresci:

Pessoalmente não tenho nada contra em ter o missal no tablet. É um suporte do texto como qualquer outro. Ou então teremos que voltar a produzir pergaminhos pra poder celebrar missa se quisermos nos ater ao arqueologismo. De qualquer modo, já vi muitos padres usando o tablet com a homilia, incluindo em Missa tridentina.

O papel já teve sua morte decretada, ele ainda está no periodo de sobrevida. A geração anos 90 já é adaptada ao uso de tablets para tudo, e não tem o mínimo pudor em trocar livros de papel por estes. Já as anteriores, que viveram a transição, é que ainda têm problemas com isso.

A bateria do iPad dura 10h...

Velas de led já existem. Estas já até existem (mas não podem ser usadas na missa porque a legislacao exige expressamente que sejam de cera). Sao usadas em oratorios, e salas de promessas.

O padre pode usar o tablet como usa um folheto com avisos, desde que as outras coisas estejam lá, como o Missal.

Conto uma historia que passei há alguns poucos anos, por exemplo, para demonstrar a utilidade disso, preservando identidades: estava eu em um determinado local e data com um determinado sacerdote que só celebra Missa tridentina, assistindo a uma conferencia. O superior do local autorizou este sacerdote a celebrar em privado numa capela especial, e eu fui lá de coroinha e unico assistente da missa dele. Chegando na capela, o missal tridentino dela havia sumido - ele sumiu por completo, nao se sabe se de proposito pelo responsavel pela liturgia ou por acidente, mas isto nao vem ao caso. O sacerdote ja esperava que o missal estivesse la (pois havia la celebrado outras vezes) e nao levou o seu na bagagem (o sacerdote era de longe).
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Resultado: para nao deixar de celebrar sua missa tridentina diaria, o referido sacerdote CELEBROU A MISSA DE CABEÇA, de cor e salteado, a unica que ele havia decorado de tanto usar (a da memoria de Nossa Senhora, em geral celebrada nos Sabados de manha), mesmo sendo uma quinta feira se nao me engano o dia. As leituras ele tirou do Breviario ou da Biblia, nao lembro, as mesmas do formulario da missa que ele tambem tinha decorado os capitulos e versiculos.
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Tendo um tablet ali, ele nao precisaria ter esta preocupacao e nem estar no limite da legalidade (celebrar sem o livro apesar de ter feito o texto todo é irregular). Alias, depois do acontecido, ele passou a carregar um iPad com os dois missais e os dois breviarios. Se usa pra missa, nao sei - mas usa pro Breviario, pois isso ele me confirmou.
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A legislacao diz/dizia que as velas tem de ser de X% de cera, etc. Mas nao diz que o missal/livro tem de ser feito de papel.

Concordo em parte com a crítica de Antonio Spadaro SJ a respeito disso. Claro que o livro ainda é um objeto simbólico, mas ele se trata apenas de um mero suporte ao texto, que é o que interessa. Eu acho que se for por aí de discutir se algo é tradicional ou não, acabaríamos caindo no arqueologismo e forçando todo mundo a voltar ao pergaminho. Assim como o Concilio de Trento inovou na tecnologia, ela poderia ser inovada novamente quando a tecnologia mudar completamente o panorama, o que já está acontecendo. Os bebês e crianças hoje já nascem com um tablet na mão e pode ser que passem a vida inteira sem ver um livro (obrigatoriamente). Escolas também adotam tablets cada vez mais cedo, e o ensino da escrita também passa por reformas (em especial na América do Norte, por exemplo, onde já não se ensina mais cursiva nas escolas, só letra de forma). Em breve, os livros de papel serão deixados de lado em prol dos digitais, basta a geração que usa papel morrer.
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A solução biologica não serve somente pra se livrar dos TLs e modernistas.
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Existe a opção do missal 100% escaneado. Assim não precisa de nihil obstate pois não é nenhuma edição nova, apenas cópia. A cópia para uso pessoal, de algo que você possui, não é ilícita... Eu estou fazendo considerações filosóficas, e não legais (as demonstrações legais são para suportar as filosóficas).
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Finalizando, quando a Igreja se pronunciar a favor ou contra esta tecnologia, nos dobramos em acatamento. Por enquanto, debater faz parte.
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PARA CITAR ESTE ARTIGO:

Ipad como missal no rito tridentino

David A Conceição, 07/2014 Tradição em Foco com Roma RJ.


Domine Iesu, quem velatum nunc aspicio, Oro, fiat illud, quod tam sitio, Ut te revelata cernes facie, Visu sim beatus tuae gloriae. Amem.
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